O Largo do Machado fervilhava.

Um grupo matava o tempo contando histórias.
Palavra com Juvenal, bom papo.
Filosofou:
Apelido define uma vida. Pedrinho Caroço, assim chamavam o Pedro Tavares.
— Perguntou Almeidinha, Pedrinho Caroço?
— Caroço deve ser da barriga, afirmou Pereira rindo.
Estão enganados, não tinha caroço no corpo, nem barriga, era magro.
Continuou:
Carioca, suburbano, perto dos setenta, moreno,  sorriso constante, este o seu perfil.
Magnólia, redonda, gorduchinha, magna, courinho, pelota, bola, caroço.
— Rola o caroço, assim se referia a bola nas peladas ou ainda no início de uma partida de futebol.
O caroço, era seu companheiro inseparável. Chutava antes de nascer segundo relato insuspeito da mãe.
Jogava pelada pela manhã, tarde e noite. Parava para dormir.
Ia a escola muito a contragosto, claro jogando futebol no recreio. Comia pouco, fome só do caroço.
Conhecia todos os estádios. Bariri, Moça Bonita, Laranjeiras, Gávea...
No Departamento Autônomo. Mavilis, Manufatura, Nacional, Confiança, Pavunense...
No Ligth do Grajaú, assistia torneios internos.
Era presença constante nos campos abertos dos subúrbios: Americano do Méier, Filhos de Irajá, Deodoro, Inhaumense, Cerâmica.
No Jacaré via quatro jogos simultaneamente. Vinte e Quatro de Maio, Royal, Baronesa e Pacífico, atravessando e molhando os pés no rio que dá nome ao Bairro.
Amante do caroço, natural se imaginar jogador profissional.
Sonhava, delirava à noite, fazendo golaços, a galera frenética gritando seu nome.
Tentou vários clubes, insistiu muito, tinha bola, não para profissional. Desistiu.
Deprimiu-se. Levantou a bola, tocou a vida, arranjou bom emprego.
O pai, cabo eleitoral, conseguiu-lhe colocação na Gaiola de Ouro. Assinava o ponto, sobrava tempo para o futebol.
Casou.
Novo sonho. Um herdeiro, futuro craque, o filho seria sem dúvida, jogador profissional.
Virou obsessão.
Nasceu o rebento. Homem.
Virou craque, perguntaram?
Calma pessoal. Posso continuar?
Vai que é tua Juvenal.
Correram os anos, conhecia da matéria como ninguém. Era requisitado nas rodas de botequim. Desfilava sapiência.
— Viram o gol do Didi, o primeiro do Maracanã? Eu ví. Estava lá.
— Quem puxou o côro das Touradas de Madri, no BrasilxEspanha de 50? Eu, euzinho.
— Final da Copa, o Estádio quase caiu no gol do Friaça. Depois do Ghigia, o silêncio sepulcral. Quase parei com o futebol.
Adorava declinar as escalações do passado:
Gilson, Gerson, Santos (Nilton Santos a Enciclopédia)...
Barbosa, Augusto, Clarel...
Castilho, Píndaro, Pinheiro...
Garcia, Tomires, Pavão...
Falava de antigos jogadores.
— Viram o Almir Pernambuquinho? Brigou em todos os clubes. Fez um gol pelo Flamengo enfiando a cara na lama. Inesquecível.
— Conheci o Amarildo “o possesso” ainda aspira do Botafogo. Jogava com  Amoroso, lá do Engenho da Rainha, tio desse que atualmente engana na Alemanha e na Seleção Brasileira.
— Denilson, o Rei Zulú, é do Jacaré, vice-campeão infanto de 59 pelo Galitos.
— Romário,  Rei da área, é do Jacarezinho, não é da Vila da Penha, de lá é o capita Carlos Alberto, que morava no Bicão.
— Descobri o Zico, melhor jogador nascido no Rio, jogando pelada no campinho da Lucinda Barbosa com Franco Vaz, lá em Quintino, muito antes do Celso Garcia.
Defensor ferrenho do futebol carioca, era impiedoso com os paulistas.
Desafiava.
O Santos conquistou todos os seus grandes títulos no Rio.
O Maracanã é o templo do futebol brasileiro. Tudo que aconteceu de importante nesses cinqüenta anos, foi no Mário Filho.
Vi os cariocas golearem os paulistas no Maraca, 4x1, dois de Henrique, Dida e Almir. Recreio dos Bandeirantes uma ova.
— O melhor craque que jogou em São Paulo, foi o Ademir da Guia, filho do Domingos. Nasceu e foi criado em Bangú. Carioca da gema.
Numa festa, um desavisado falou que no gol de placa, o Pelé driblara todo o time do Fluminense.
Caroço estomagou. Refutou.
Não driblou ninguém, estava lá. Eu vi.
Outro interveio.
— Não driblou ninguém? Então não foi gol de placa.
— Claro que foi, o mais lindo gol do maior do mundo.
— Li no livro daquele comentarista que Pelé driblou.
— Ele não viu. Comentarista é mestre Armando Nogueira e Saldanha.
Tem o Gerson, Sandro Moreira.
— O canhota era bom fazendo lançamentos para o imperador Jairzinho.
— O Sandro era gozador, aquela história do trator esquecido no campo da Portuguesa, no Canindé, francamente!
Perguntaram:
Macumba vale em futebol?
— Claro que não, prefiro os atletas de Cristo. Aquele dedinho apontando para o céu depois do gol é lição de humildade e fé.
E o gol de placa?
A festa parou:
— Gilmar com as mãos deu a bola ao Pelé na intermediária, lado direito do campo. Estão visualizando? Arrancou, parou na linha divisória. O Clóvis estava a três metros do negão, também na divisória. Ameaçou ir para cima do quarto zagueiro, que deu meia volta e quase caiu. Avançou até a intermediária tricolor. Aí aparece o gênio. Altair pela esquerda e Pinheiro pelo meio tentam parar o Rei, que com um toque joga a bola na frente, passando entre os zagueiros que quase se chocam. Castilho saí do gol, Pelé toca na bola pelo lado direito do goleiro, no contrapé. Toque suave, bola rolando na grama, sem pressa, inexorável em seu caminho até mansamente beijar as redes.
— Afirmo, foi o dia mais sublime do grande estádio e certamente o seu gol definitivo.
Emendou de primeira.
Conto a maior defesa do Maraca.
— O Castilho, Carlos José Castilho, lá de Higienópolis, bairro do Felipe do Flamengo e do Patrik, juvenil do Mesquita, que tem futuro.
Continuo.
— FluminensexPalmeiras. Chinezinho recebe na marca do pênalti, de costas, vira, Castilho sai em sua direção, chuta à direita, rasteirinho, no cantinho, vai entrar. São Castilho, o homem da leiteria, voa para trás e com a pontinha dos dedos desvia para escanteio.
— Anos depois, na Revista do Esporte, Castilho relatou essa defesa como a maior de sua carreira. Corrijo, foi a maior defesa do Maracanã.
Essa a história do nosso doutor em futebol.
Ué, acabou?
E o filho, o craque indaga Pereira?
— É médico, cirurgião cardíaco, do Fundão, o melhor Hospital do Brasil.
Perguntou  Almeidinha. Não quis ser jogador?
Não foi bem assim , amanhã eu conto.
Hoje, determinaram, curiosos.
Termino.
Nascido o guri,  comprou chuteira, meião, calção, camisa, bola. Apetrechou o futuro craque.
Mal começou a andar obrigava o garoto. Chuta! Chuta!
Trabalho diário com o futuro jogador, até completar 10 anos.
O pai foi percebendo que não levava jeito para a bola. Como estudante era fera, sempre nota dez.
Nessa idade foi franco.
— Papai sei que você queria ser jogador, não conseguiu, colocou suas esperanças em mim. A verdade é que estou em outra. Não sei, não quero jogar futebol. Quero ser médico.
Segunda decepção.
Chorou, entrou em crise. Vida que segue. Retornou aos gramados.
Acabou, perguntou Silveira?
Calma apressado!
Anos depois o guri irrompe pela casa gritando:
Pai, estou jogando no time da escola.
Caroço quase morreu de emoção, lembrou jogadores que despertaram a vocação aos quinze anos.
Conta para o Papai.
O filho explicou:
— O professor de Educação Física resolveu disputar os jogos estudantis, e estou no time.
Pedrinho delirou.
— É isso aí garoto, esse é meu filho, médico é o cacete. Jogador de futebol. Isso é que é. Estás no primeiro time?
Pai, primeiro não.
Ficaste no segundo?
Não, não deu para o segundo.
O pai ressabiado perguntou.
Escola tem terceiro time?
Tem sim.
Pegaste o terceiro? Tudo bem.
— Não, não estou no terceiro.
Não estás no primeiro, nem no segundo, nem no terceiro, afinal qual é o teu time?
—Estou no Fusa, afirmou cheio de alegria.
—Fusa? Que raio é  esse?
O filho explicou:
O professor separou os bons de bola no primeiro, os razoáveis no segundo, e os ruinzinhos no terceiro time, o resto formou o Fusa.
Entendi, balbuciou  Caroço quase chorando.
Bons de bola no primeiro, razoáveis no segundo, pernas de pau no terceiro. O resto é o Fusa.
É isso, estou jogando no Fusa, repetiu o moleque com incontida felicidade.
Desesperado arriscou uma última pergunta.
Qual é a tua posição no Fusa, filhão?
—Bem papai, por enquanto estou na reserva.
Pedrinho Caroço teve uma convulsão, foi hospitalizado, abandonou o futebol por dois anos.
Aos poucos voltou aos campos até entregar-se novamente de corpo, alma, e mente ao futebol.
Semana passada embarcava para Niterói.
Um conhecido perguntou:
—Pedrinho onde rola hoje o caroço?
E Pedrinho excitadissímo.
—Jogão de bola no Caio Martins, FogãoxCeará pela segundona.
Os amigos se dispersaram gargalhando alto.
Ficou Juvenal e seus pensamentos:
—Grande Pedrinho Caroço!
Lá ao fundo, bem no alto, o Cristo Redentor, braços abertos, abençoando eternamente a Cidade Maravilhosa.  

Badinha

 

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